Outro mundo é possível, necessário e acontece

Em 2001, a frase “um outro mundo é possível” foi usada como slogan do 1º Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, evento que buscou mobilizar e articular variados movimentos sociais, ONGs, ativistas e entidades civis em torno do debate da construção de uma alternativa viável ao capitalismo neoliberal.

De lá pra cá, o slogan virou um grito por um mundo mais justo e sustentável e serviu de inspiração para experiências que comprovam que tanto é possível, como ele acontece na prática. É isso que a Associação Casa da Videira, em Curitiba, tem comprovado com seu exemplo de auto sustentabilidade.

A ONG é formada por um grupo de 10 pessoas que atua com projetos voltados à pesquisa e agricultura familiar. Esse coletivo deu vida a um sobrado da época de 1970 que estava abandonado no bairro São Francisco, aos fundos do Cemitério Municipal. Por lá, essa comunidade alternativa transformou o antigo casarão em um centro de agricultura urbana. Dos 1 mil metros quadrados de área total, pelo menos 400 metros estão destinados para plantio e produção de uma média de 4 toneladas de alimentos por ano.

Fotos: Helena Novelletto

Na Casa da Videira, o consumo e produção se equilibram de forma sustentável, o manejo de resíduos respeita os ciclos de natureza, tornando-se uma referência em compostagem, nos experimentos agroecológicos e com a produção de 85 espécies de PANCs (plantas alimentícias não convencionais). A diversidade é marca registrada. Além das frutas e hortaliças, no local é fabricado massas caseiras, pães artesanais, bolos, geléias, queijos e kombuchas de erva-mate em vários sabores.

Mas a produção de alimentos é apenas uma das propostas da Casa da Videira, uma de suas “camadas”, como explica o ativista Claudio Oliver, um dos coordenadores da ONG. Além de provar que é possível produzir comida na cidade, a Casa da Videira mostra que é possível fazer pesquisa acadêmica e aplicada envolvendo alimentação de forma sustentável, sem a necessidade de verba pública.

A sustentabilidade e a preocupação ambiental estão em todas as etapas do trabalho da ONG, como por exemplo na capacidade de absorção de resíduos urbanos, na captura do gás carbono. “Temos um crédito de carbono de toneladas creditadas neste lugar, o que diminui a poluição ambiental”, comemora Oliver, que é zootecnista de formação.

A espiritualidade é outra marca registrada desta comunidade que vive em harmonia com a natureza. Segundo Oliver, a Casa da Videira é uma “expressão da fé”, da tradição judaíca-cristã que se traduz em estudo e vida em comunidade. “Estudar é nossa identidade, funcionamos como uma espécie de mosteiro ou kibutz”, conta o idealizador do projeto, referindo-se a forma de coletividade da comunidade judaíca.

SOLIDARIEDADE

Para além do trabalho de geração de renda e auto sustentabilidade por meio da agricultura urbana, a Casa da Videira destacou na pandemia da Covid-19 por ações de solidariedade. A ONG distribuiu no período 4 toneladas de comida por mês para cozinhas solidárias, entidades, igrejas e comunidades indígenas.

Ao conversar com Claudio Oliver sobre essas ações solidárias, entramos em um assunto que também é caro para essa ONG que não fecha os olhos para os atuais problemas sociais do país, em especial, a questão do aumento da fome.

Fotos: Helena Novelletto

Em 2017, quando dos debates sobre a Lei de Agricultura Urbana no município de Curitiba, Oliver esteve na Câmara de Vereadores para debater sobre a legislação da qual foi um dos idealizadores. À época, o ativista fez uma explanação baseada na frase: “não tem nada para comer”. Naquela ocasião, sua tentativa foi mostrar que faltava consciência do que é alimento, uma forma de mostrar que havia comida, mas que era preciso saber identificá-las.

Passados cinco anos, o ativista afirma que a frase ganhou outro sentido. “Naquela época já alertávamos que a fome estava voltando. A grande diferença é que a fome estava muito concentrada no Nordeste e hoje ela é ‘democrática’, ela está espalhada por todas as regiões. Esse governo que está aí democratizou a fome. Então hoje, o “não tem nada pra comer”, significa realmente que as pessoas não têm o que comer”.

Essa fome, segundo Oliver, é fruto da ignorância, das injustiças sociais, da concentração de terras e do impedimento do acesso aos meios de produção. O coordenador da Casa da Videira usa como exemplo a cidade de Curitiba.

“Com 10 mil metros de terreno – um campo de futebol – você tira comida para 100 pessoas. Se pensarmos que temos 7 mil pessoas em situação de rua, nós poderíamos alimentar todo faminto dessa cidade a partir dos terrenos que temos disponíveis na cidade”, afirma Oliver, trazendo o dado levantado pela ONG de que em Curitiba existem 7.200 hectares de terra que poderiam ser usados para a agricultura urbana e, consequentemente, para alimentação deste contingente de pessoas famintas na cidade.

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