É possível transformar o comer em ato político

A frase “comer é um ato político” está ligada às escolhas diárias que fazemos que incentivem a produção e o consumo sustentável. Pensando nisso, o empresário e chef de cozinha Felipe Petri tem agido politicamente em seu empreendimento, incentivando a agricultura familiar, comprando insumos de produtores locais e suscitando o debate sobre uma alimentação “progressista”.

Há três anos, o carioca abandonou a engenharia para ser chef de cozinha e por inquietude própria quis fazer algo que iria além da gastronomia em si. “Quero que as pessoas entendam alimentação de uma outra forma, da forma que ela merece, que reflitam sobre o ato do consumo, não enquanto dieta ou mapa de calorias, mas também como ato político”, diz o empresário, que é responsável por uma coluna de gastronomia no jornal Plural.

Em maio deste ano, Petri inaugurou o restaurante Petrisserie – espaço gastronômico e cultural – onde tem buscado parcerias com fornecedores de insumos locais, trabalhando com o máximo de produtores da região, como a linha de chá e erva orgânica produzida pelo MST, a empresa Olha o Peixe!, de pescados de pescadores artesanais do litoral paranaense e a cafeteria Manifesto, de pequenas cafeicultoras.

“Deixei de ser apenas ‘anti’ para ser ‘pró’, pró-consumo pensado e sustentável. Tenho buscado ser progressista na alimentação, reverberando não só as políticas sociais presentes nessas parcerias e acrescendo na qualidade dos insumos”, comenta Petri, que traça como próximo objetivo a inauguração de uma horta própria no restaurante.

Petri optou por fortalecer a agricultura familiar em seu empreendimento, porém sabe que em um país onde grande parte da população não pode escolher o que comer, o consumo só se tornará realmente um ato político quando políticas públicas forem criadas no sentido de valorizar a agroecologia como ferramenta para a democratização de uma alimentação saudável.

O chef pondera sobre o consumo de alimentos ultraprocessados, vendidos por grandes redes de mercados. “Essas opções são mais baratas, os ultraprocessados bateram recorde de preços baixos, ou seja,é uma pressão lobista para que a gente se alimente cada dia pior”, diz Petri, apontando como problema o desmonte dos aparatos de segurança alimentar no Brasil. “O que esse governo está fazendo para salvaguardar o direito à comer da população?”, questiona.

Ao comentar o retorno do Brasil ao Mapa da Fome Mundial, Petri faz uma reflexão sobre nosso passado escravocrata. “Há um corte delimitado e demográfico de quem tem fome, desde sempre os corpos negros são os piores nutridos. Hoje isso reflete nas bases da pirâmide, que são as mães solos, as mulheres negras e seus filhos e filhas, as pessoas em situação de rua. O Brasil não fez as pazes com a escravidão”.

Na parede do restaurante, quadro do cartunista Benett deixa o recado de Felipe Petri. Fotos: Julio Carignano

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